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ALGUMAS QUESTÕES SOBRE FUTEBOL DE FORMAÇÃO

  • 19 de abr.
  • 4 min de leitura

Quando era jovem e jogava futebol, tempos em que não se pagavam mensalidades, apenas os miúdos, sobretudo os mais talentosos, é que eram escolhidos pelos clubes a fazer parte das equipas dos diferentes escalões. Os que "não eram bons", ou não tinham jeito para o futebol eram simplesmente dispensados.

Nessa altura, começava-se a jogar no escalão Escolas (hoje Benjamins) e apenas se jogava futebol de 11.

Os planteis não eram muito numerosos (comparativamente com o que se observa hoje em dia) e como se jogava apenas futebol de 11, todos tinham o seu espaço e tempo para jogar (os mais talentosos tinham sempre mais tempo de jogo relativamente à restante equipa).


Hoje em dia, o número de jogadores por jogo é menor devido (e bem) à criação do Futebol de 3, de 5, de 7 e de 9 (mediante o escalão). No entanto, o número de atletas aumentou significativamente, por um lado devido ao mediatismo do futebol, por outro lado, tornou-se uma fonte de receitas para os clubes. Não importa para os clubes se a criança tem jeito ou não, desde que pague...


Ora, se os clubes aceitam todas as crianças, independentemente da sua qualidade, se ainda por cima se identificam como clubes que têm como objetivo formar, então devem dar oportunidade para todos jogarem, pois a formação dos jovens não é completa se não competirem (deixo o link sobre um artigo que já escrevi sobre a importância da competição na formação:


Coloca-se as questões:

- devem ser todos convocados? Não. Devem ser convocados apenas aqueles que não faltam aos treinos, que se dedicam e se esforçam, que cumprem com as instruções do treinador, que trabalham, independentemente da sua qualidade;

- nos jogos, devem jogar todos? Sim. Se uma criança é convocada, então tem que jogar. É impensável que uma criança não jogue, sobretudo nos escalões mais jovens onde as substituições são volantes. Quando as competições não permitem (nomeadamente competições da FPF), a minha opinião é que se deve realizar as máximas substituições permitidas pelo regulamento da prova.

- devem jogar todos o mesmo tempo? Não, no entanto, na minha perspetiva, todos devem jogar pelo menos 1/4 do tempo do jogo.

- isto quer dizer que não é importante ganhar jogos? Sim. Nos escalões de formação o ganhar jogos não é o mais importante, no entanto não ter ambição de ganhar cada jogo, é ser-se um competidor desonesto. Cabe ao treinador tentar ganhar sempre os jogos. Mas este tentar ganhar, não pode ser a qualquer custo, sobretudo das crianças. Deverá gerir as substituições de modo a manter a equipa o mais equilibrada e competitiva possível com as entradas e saídas dos jogadores, de modo a tentar ganhar o jogo.

- como lidar com os jogadores que culpabilizam os colegas pelas derrotas (normalmente os mais talentosos referindo-se aos "menos bons")? - cabe ao treinador explicar em primeiro lugar que todos fazem parte da equipa. Explicar que todos são importantes, que é graças a todos, que eles têm oportunidade de treinar e de jogar. E que inclusivamente ajudam-se uns aos outros a evoluírem, tanto individualmente como enquanto equipa.

- e como lidar com os pais que só querem ganhar? Das realidades que eu conheço, a comunicação entre clubes e pais é fraca e isso influencia muito o comportamento dos pais nos jogos. Os clubes devem ter uma comunicação assertiva com os pais. Devem ditar as suas regras, inclusivamente devem criar um regulamento para que estes o sigam. Depois caberá aos clubes garantir que esse regulamento é cumprido.

Comecei este artigo a escrever enquanto jovem jogador, termino agora falando enquanto treinador.


Nas ultimas 2 épocas treinei em contexto de formação. No início de cada época reuni-me sempre com os pais e expliquei-lhes as regras, pelas quais iria reger-me ao longo da época, quer ao nível dos treinos, quer ao nível das convocatórias e jogos. Naquele momento os pais tinham a oportunidade de concordar ou não as condições que estavam a ser apresentadas. O mais importante foi nunca ter fugido ao que tinha comprometido fazer (não abri exceções, pois quando tal acontece perdemos credibilidade), cumprindo sempre com o que foi dito nessas reuniões e consequentemente não ter tido problemas de maior. Se foi fácil, claro que não, mas quem procura "facilitismo" então não deve treinar crianças e jovens, pois é uma "profissão" exigente, que não se resume a chegar ao clube e treinar, envolve muitas horas de trabalho e reflexões fora do clube.


Leio muitas vezes que a remuneração não compensa. Concordo plenamente, os treinadores, sobretudo da formação são extremamente mal pagos, mas como eu digo sempre:

- as condições são acordadas com os clubes (ou pelo menos deveriam de ser), portanto só aceita quem quer;

- se é para fazer/cumprir, então que se faça bem feito, seja porque depende daquele valor ou simplesmente por brio profissional!


Engane-se quem pensa que no futuro, os adultos outra ora crianças, vão-se lembrar apenas das vitórias. Lembrar-se-ão sobretudo dos companheiros e treinadores que os marcaram.

Ainda hoje, de vez em quando, alguns jogadores que passaram por mim no futebol de formação, alguns há mais de 20 anos, vêm aqui comentar o que escrevo, sobretudo sobre este tema.

Para mim esta é a minha maior vitória no futebol...

O reconhecimento dos atletas com quem privei e que espero que tenha contribuído (nem que seja pouco) para o seu crescimento!

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